domingo, fevereiro 18, 2007

As contradições do Estado Francês: Monique Sicard no CCB

Ao ler os dois últimos posts, percebe-se o tema proposto. Martin Parr responde com “No French Photography”, à lei que obriga a uma autorização prévia do fotografado e muitos seguem Parr. Não iriam parar a prisão, diz-nos a rir Monique Sicard que esteve 6ª feira passada no CCB a orientar o seminário La Photographie: un bien Public?, mas a tendência é evitar problemas, e cada vez mais as pessoas estão ausentes nas fotografias, referindo-se a uma exposição recente que vira de Raymond Depardon.
No lado oposto, a França teve um ministro como Jack Lang, que na década de 1980 entende o atraso em que caíra a França na valorização do seu património fotográfico, e embora isso lhe custe uns milhares no orçamento do seu ministério tenta remediar o mal. Como terá dito a Robert Delphire, como poderemos democratizar a história, o património fotográfico...homem dinâmico, pôs de pé o Centre Nacional de Photographie, diz-nos Sicard.

François Arago, precisamente 140 anos antes democratizara a invenção do daguerriotipo. Lermos os relatos da sua intervenção na Academia das Ciências no dia 19 de Agosto de 1839, percebemos a admiração que Sicard tem por Arago.
Ao contrário de outras grandes invenções que passaram desapercebidas do público, a fotografia teve desde o dia do seu anúncio um grande impacto. Duas horas antes do anúncio os curiosos e entusiastas encheram a sala da Academia e muitos tiveram de aguardar ansiosamente no pátio a divulgação do segredo, lemos numa descrição de Marc-Antoine Gaudin, futuro redactor do primeiro jornal dedicado à fotografia, La Lumière, que continua “ ...Enfin la séance se termine, et le secret est divulgué. Pour ma part, je cours aussitôt acheter de l’iode, regrettant déjà de voir baisser le soleil, et d’être obligé de remettre l’expérience au lendemain...” e seguiu-se uma autêntica daguerromania. A França democratizava a invenção fotográfica.
Feito notável para a altura, três meses depois, Lerebours, enviava fotógrafos para diversos pontos do globo, e em 1842 publica em fascículos a obra “Excursions daguerriennes: villes et monuments les plus remarquables du globe”. Era uma inovação fantástica, em casa, sentado confortávelmente no sofá, podia-se viajar pelos lugares mais recônditos do planeta.

Regressando à fotografia contemporânea, o seminário passava entretanto a uma conversa informal com os que quiseram ficar para ouvir Sicard, metade da assistência saíra, talvez já soubessem tudo. Vou mostrar a colecção da Caisse de Dépôts et Consignations, querem ver? Claro que queriamos, embora a Culturgest, em Janeiro de 2003, nos dera a conhecer parte dela na exposição Douce France.


Vou escolher as que mais gosto, diz Sicard e passou à projecção de dois trabalhos que analisavam o que se passou na guerra do Golfo: Sophie Ristelhuber, e a sua série Fait de 92 e Thomas Ruff na sua série Nacht 92/93.

Agora peço desculpa ao leitor pela interrupção, mas vou contar como iniciei o blog. Por impulso momentâneo mais do que uma ideia premeditada, fui para o computador e segui os passos que me eram pedidos para a criação do blog. O problema surgiu quando chegou a altura de inserir as imagens que queria, não conseguia. Alertaram-me que as tinha que redimensionar, mas só no dia seguinte consegui instalar esse programa. Hoje é bem visível a falha no primeiro post, e a tentativa de remediar a falta de imagens com o segundo post. Já fui tentada a corrigir, mas nunca o fiz. Acho engraçado deixar estas falhas de principiante. Mas por vezes sinto alguma frustração de não ter ilustrado o texto. Sicard deu-me uma ajuda preciosa ao escolher precisamente essas imagens, e vou finalmente aliviar a frustração ao mostrar as fotografias que ficaram em stand-by.

Questionava eu nesse post realidade ou ficção?


Ristelhueber no seu trabalho Fait, sobre a guerra do Golfo alterna vistas a partir do solo com vistas aéreas do deserto do Koweit. Fotografias de grande formato (100x130 cm)sem referência de escala para desorientar quem vê, mostram quer as marcas dos objectos pessoais como as marcas de destruição bélica deixadas no terreno pela artilharia de guerra americana.



Sophie Ristelhueber, Fait, 1992

Dois anos mais tarde, a série Every One, é um trabalho de maturação das guerras que testemunhou. Corpos anónimos submetidos a cirurgias são fotografados num hospital de Paris.
Sophie Ristelhueber, Every One, 1994
As cicatrizes dos corpos Every One reenviam-nos para as marcas deixadas pela artilharia no deserto do Koweit e criam como que uma força simbólica dos corpos mutilados da guerra. Da imagem fidedigna das cicatrizes somos levados implicitamente para o horror de todas as guerras.
Na guerra do Golfo, todos nós em casa frente aos nossos televisores fomos surpreendidos pelas imagens que a CNN difundiu em directo desta guerra.
Ao longo dos dias habituamo-nos às imagens fornecidas via satélite que invadiam os nossos ecrãs. De tons esverdeados, mais pareciam imagens de jogos de uma guerra virtual. Thomas Ruff, na sua série Nacht 92/93, revela de forma irónica esta crise do referente. Uma série de imagens nos mesmos tons esverdeados e cujo conteúdo é quase imperceptível, remetem-nos para as imagens divulgadas da guerra do Golfo.
Nacht, série 5 ,10 e 14 , Thomas Ruff, 92/93

Walter Nidermayer, Gabriele Basilico, Suzanne Lafont, Florisa.. e a mostra prosseguia agora com uma incursão pelo território urbano. ..
G.Basilico, Boulogne-sur Mer, 1984
Valérie Jouve, Sem título, 1994
à medida que projectava as fotografias Sicard foi referindo o que era a Caisse e como constituira a sua colecção. Instituição pública francesa, criada em 1816, tem por missão fundamental a gestão e salvaguarda dos fundos privados que, por decisão do Estado, beneficiam de protecção especial. Em 1990 a Caisse iniciou a sua colecção de obras fotográficas, e reunia aproximadamente oitocentos trabalhos. O objectivo da colecção era propor uma descrição da França contemporânea. Reunia? Sim disse bem, porque em 2006, a Caisse doou a colecção ao Centre Pompidou que a teve em exposição. Porque terá a caisse doado ao Pompidou uma colecção que tão acarinhadamente constituira? A Caisse estaria certamente mais bem preparada para a perservar diz-nos Sicard que também não sabe explicar o porquê da doacção. Passa de uma instituição pública para outra instituição pública?

E a conversa continua, muitos destes fotógrafos, diz-nos Sicard passaram pela Datar, abreviação que significa Délegation à l’aménagement du territoire et à l’action régionel, uma iniciativa do ministério de ordenamento do território. Na altura, década de 1980, os sistemas de informação geográfica (SIG) estavam no início, e o ministério, que queria um levantamento do ordenamento do território pôs a seguinte questão, será necessário um levantamento fotográfico visto estar a ser utilizado o SIG? Entendeu o governo e bem que o levantamento fotográfico era complementar, e o ministério arrancou com o projecto fotográfico em 1984 hoje conhecido como Mission Photographique de la Datar. François Hers e Latarjet, responsáveis pelo projecto não cederam a pressões do ministério da cultura e recusaram os fotógrafos sugeridos por Robert Delphire, queriam garantir uma diversidade de olhares neste projecto comum. Raymond Depardon, Gabriele Basilico, Sophie Ristelhueber
Sophie Ristelhueber,Datar 526, 51,5 x 42,5cm, 1986
Sophie Ristelhueber, Saint Clément, Datar, 84/85
G.Basilico, Le Crotoy,1984
Jean-Louis Garnell, 1986, Datar
fizeram parte do núcleo inicial dos treze fotógrafos. Em 1985 é editado o livro Paysages, Photographies,
que esgotou rápidamente e os trabalhos foram exibidos nesse mesmo ano no Palais de Tokyo. A Missão apresentava-se como um work in progress, expondo os trabalhos que se iam fazendo. O sucesso da exposição foi tal que se prolongou por mais dois meses. A motivação principal da Missão diz-nos Latarjet “ est de nourrir un movement nécessaire en faveur du paysage. La Datar a appris en effet que la qualité des espaces de la vie quotidienne détermine chaque jour davantage les choix que font les Français de leurs lieux d’habitation et de travail. Elle est donc au coeur de l’aménagement du territoire”. Hoje, tema tão recorrente, parece absurdo não termos acesso a esta obra ríquissima.
Sicard também não encontra resposta. A Biblioteque National de France, tem uma parte do trabalho, mas só lá indo consultar é que a podemos ver. Hoje, e só a título de exemplo, a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos permite a qualquer um a consulta dos seus arquivos pela internet. Em França, falta dinheiro ou interesse?

À questão La Photographie: un bien Public?, respondo: a França precisa de outro Jack Lang que cuide do seu riquíssimo património.

Monique Sicard é investigadora no CNRS (Centre National de Recherche Scientifique) em França.

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